Artigos Gestão sustentável dos recursos hídricos, uma política de segurança nacional
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Brasília sedia, a partir de hoje, o 8º Fórum Mundial da Água, uma iniciativa do Conselho Mundial da Água (WWC) e do governo brasileiro para discutir o uso racional e compartilhado desse recurso natural indispensável. A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) apoia incondicionalmente o encontro que, pela primeira vez, ocorre em um país do Hemisfério Sul, onde se encontram algumas das principais reservas aquíferas do planeta.

A agropecuária nacional, ciente de seu papel relevante na produção de alimentos para suprir as demandas interna e externa, participa com enorme interesse desse debate. Ao contrário do que se costuma divulgar, foi graças ao desenvolvimento de um modelo de produção inovador e preservacionista que o Brasil se tornou o terceiro maior exportador de alimentos do mundo, atrás apenas de Estados Unidos e China.

O uso da água no campo tem finalidade de indiscutível importância, a produção de alimentos. Nesse contexto, os produtores rurais acabam por se tornar, também, produtores de água na medida em que produzem preservando nascentes e trabalhando o solo, para aumentar o potencial de produtividade. Não por acaso, desenvolvemos no Brasil uma agropecuária eficiente e sustentável, que representa em torno de 24% do Produto Interno Bruto (PIB), gerando emprego e renda para 32 milhões de brasileiros.

Assim, vemos o Fórum como excelente oportunidade para mostrar ao Brasil e ao mundo como o uso sustentável da água é prática fundamental na produção de alimentos, fibras e biocombustíveis. Como representantes do agro brasileiro, vamos participar ativamente do fórum, discutindo problemas e apresentando a nossa proposta aos governos, organismos internacionais, organizações não governamentais, empresas e consumidores em geral. Queremos demonstrar que os produtores rurais são parte da solução para uma gestão sustentável da água no planeta.

Precisamos investir em tecnologias que nos permitam produzir o máximo de proteína vegetal, proteína animal, agroenergia, fibras com o mínimo de impacto ao meio ambiente. Defendemos a utilização racional da água em sistemas de irrigação que possam contribuir, de forma decisiva, para o aumento da produtividade no campo, especialmente nas áreas afetadas pela seca, como é o caso do semiárido brasileiro. Temos, hoje, experiências de sucesso no Nordeste, onde a fruticultura irrigada se tornou fator de prosperidade para a região.

Entendemos que os governos podem e devem apoiar iniciativas similares. Será importante propor e adotar políticas públicas que facilitem o acesso do empreendedor rural às modernas técnicas de irrigação e permitam a implantação de novos projetos. O Brasil, com cerca de 7 milhões de hectares irrigados, é um dos poucos países – senão o único – em condições de triplicar essa área nos próximos anos, verticalizando a produção agrícola e reduzindo a pressão pela abertura de novas áreas.

Importante lembrar que o Brasil dispõe de uma legislação eficaz, que regula o uso da água por meio de outorgas concedidas legalmente. Possui órgãos fiscalizadores, federais e estaduais, que zelam pelo cumprimento do que foi acordado entre as partes. Vale considerar, também, que as chamadas Boas Práticas Agrícolas (BPAs) fazem parte da rotina dos produtores rurais brasileiros. As técnicas de plantio direto, por exemplo, que preservam a umidade e a fertilidade do solo, já estão presentes em mais de 60% das nossas áreas cultivadas.

Acreditamos que a preservação da água para uso múltiplo, com destaque para a produção de alimentos, fibras e bioenergia, deve ser tratada como política de segurança nacional, pois garante a segurança alimentar e promove o desenvolvimento socioeconômico, além de preservar o meio ambiente – no qual a propriedade rural se insere e é parte indispensável.

Fonte: Correio Braziliense

* João Martins da Silva Junior é Presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA)