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O vigor da democracia 

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Nossa democracia se mostra imune asoluções autoritárias e não mais se contenta com a impunidade

Em meio ao alarido provocado pelos escândalos da Petrobras, tem passado a segundo plano o que seja talvez o mais relevante: o vigor da democracia brasileira.

A Petrobras, com certeza, tornou-se um instrumento de indivíduos inescrupulosos, sem o menor apego ao espírito republicano que deveria nortear as suas respectivas ações. E isso afeta não só os envolvidos mas o mercado como um todo, que enxerga nesse fato fragilidades a serem corrigidas.

Multiplicam-se manifestações populares de pessoas que tomam seus funcionários como se todos estivessem comprometidos com essas maracutaias. Os íntegros não podem pagar o preço dos criminosos. Deve-se, isso sim, separar o joio do trigo. O orgulho de seus funcionários não pode ser vilipendiado. O mesmo vale para as empresas que prestam serviço à Petrobras.

Contudo, nada do que atualmente está ocorrendo teria sido revelado não fosse a força da democracia brasileira. As investigações em curso estão baseadas no trabalho da Polícia Federal, do Ministério Público e do Judiciário.

Nada disso estaria tampouco ganhando a repercussão que merece não fossem uma imprensa e meios de comunicação atentos à verdade, interessados, sobretudo, em desvelar as mais recônditas entranhas do que se tornou um poder paralelo.

A República não comporta poderes paralelos, voltados, como é o caso, a atividades criminosas. Um país não pode conviver com tais práticas, sob pena de solapar os seus próprios fundamentos. Um país maduro, consolidado em suas instituições, sabe fazer face a tais questões.

Se a democracia fosse fraca em nosso país, um escândalo dessas proporções já estaria provocando uma crise institucional. Crise, aliás, que se veria reforçada pelo período eleitoral que acaba de concluir. Instituições débeis não poderiam conter uma avalanche desse tipo.

Faz parte do processo também que os oposicionistas procurem extrair dividendos políticos de toda essa movimentação, assim como os governistas se dissociarem de práticas por todos condenadas. Os que tiverem comprometidos com esses crimes, da situação ou da oposição, deverão pagar por isso.

Acima de todos nós estão as instituições republicanas. Note-se que essas mesmas instituições continuam com suas investigações e processos, não se curvando a inevitáveis pressões políticas e econômicas. E mesmo essas pressões estão se tornando públicas, fartamente denunciadas pela imprensa e pelos meios de comunicação em geral. Prestam essas mesmas instituições e as empresas jornalísticas uma imensa contribuição à nossa nacionalidade.

Pessoas discutem nas ruas os acontecimentos, pesquisas demonstram, como o mostrou recentemente o Datafolha, uma enorme informação de nossos cidadãos e, sobretudo, um imenso apreço pela democracia. Não é pouco, principalmente considerando a enormidade dos malfeitos.

Poderia ter acontecido uma reação contrária, própria de países que têm um sistema democrático fracamente consolidado. Os cidadãos poderiam reivindicar um governo autoritário, com o intuito de derrubar o resultado das eleições, culpando a democracia pela escalada que a corrupção ganhou em nosso país. Seria, aliás, um comportamento próprio de cidadãos descomprometidos com as instituições republicanas.

Ora, não é isso o que está ocorrendo. Exigem-se a punição dos culpados, o fortalecimento das investigações e julgamentos que coíbam tais práticas. É a própria democracia que se tornou responsável por essas investigações, pela prisão dos envolvidos e pela enorme repercussão de tais malfeitos.

Há algo definitivamente novo acontecendo em nosso país. E essa novidade consiste no vigor de nossa democracia, que se mostra imune a soluções autoritárias e não mais se contenta com a impunidade.

*Kátia Abreu, senadora e presidente da CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil)