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O agronegócio no contexto de 2015

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As notícias da área política e econômica de 2015 são preocupantes, delineando contornos de um cenário negativo.  Os empresários veem muita incerteza à frente e, nessas condições, é natural a deterioração das expectativas e a refração dos investimentos, pois o Brasil passa por uma crise de confiança.

O governo federal tem instrumentos para agir e reverter a tendência instalada, mas, infelizmente, as medidas adotadas até o momento são ainda insuficientes e a má gestão do setor público transborda para o setor privado, impactando diretamente as atividades empresariais.

O agronegócio, que tem oportunidades concretas de expansão tanto pela ótica da demanda externa quanto interna, também ressente dos ajustes da política econômica, pois o crédito rural, um dos principais instrumentos de fomento ao setor, sofreu modificações que tornarão o acesso aos financiamentos mais difícil e elevarão o custo financeiro das operações.

Desde a solenidade de abertura da Agrishow, em Ribeirão Preto, estávamos alertando o governo da importância de evitar que o ajuste das contas públicas chegasse ao Plano Agrícola e Pecuário – PAP 2015/16. O agronegócio vem exibindo ganhos crescentes de produtividade, garantindo o abastecimento e gerando superávits na balança comercial graças aos investimentos em máquinas, implementos, biotecnologia, etc. Logo, o setor deveria ser estimulado para mitigar os efeitos da política econômica, mas jamais limitado pelos reflexos do aperto monetário e fiscal.

Nossos alertas não encontraram eco e os ajustes da política econômica alcançaram o PAP 2015/16. As taxas de juros do crédito de custeio se elevaram passando de 6,75% para 8,75% ao ano.

A participação das fontes de recursos com taxas de juros livres, que podem chegar até 20%, aumentaram, contribuindo para elevar ainda mais as taxas de juros médias pagas pelos agricultores.

As linhas de investimento foram igualmente atingidas. Além do aumento da taxa de juros, como no Inovagro, por exemplo, que passou de 4% para 7,5% ao ano, os recursos programados também diminuíram.

O orçamento do Programa de Subvenção ao Seguro Rural (PSR) também teve os recursos diminuídos. Além do orçamento ter sido revisto para R$668 milhões, cerca de R$300 milhões terão de ser utilizados para quitar operações de subvenção de 2014.

O volume de recursos anunciado para o PAP 2015/16, de R$187,7 bilhões, aumentou em termos nominais, mas mesmo assim não há o que comemorar, pois a ampliação vai no máximo compensar os crescentes custos de produção.

Além disso, nossa maior preocupação agora é operacional, pois é preciso fazer com que os recursos cheguem às agências e estejam acessíveis aos produtores em tempo e hora.

O pré-custeio já prejudicado e, se os recursos não chegarem brevemente, os produtores poderão se deparar com preços de insumos mais altos, o que pode comprometer a produtividade e qualidade da próxima safra.

Temos convicção que a estratégia mais adequada para o governo deveria estimular o agronegócio para minimizar os efeitos do ajuste econômico e recolocar o Brasil em rota de retomada do crescimento o mais rápido possível. Entretanto, o governo foi na contramão do nosso pensamento, nutriu as incertezas e os ajustes transbordaram até o agronegócio pela política agrícola.

Cabe aqui, mais uma vez, uma ressalva, pois o setor produtivo demanda há anos uma política agrícola plurianual, com instrumentos e condições estabelecidas para o médio prazo, a fim de evitar ciclos alternados de expansão e retração. Essa política ainda não existe e, novamente, desperdiçamos nosso potencial e as oportunidades que o mercado nos oferece. Mas, parafraseando Cícero, pergunta-se: “Até quando abusará da nossa paciência?”.

Por sorte, os produtores rurais são vocacionados, têm fé e são perseverantes. Trabalham para impulsionar o Brasil, plantando, cultivando e colhendo safras para atender com responsabilidade o abastecimento de cerca de 210 milhões de brasileiros. O homem do campo não pode recuar, por isso continuará reivindicando ações públicas adequadas, acreditando que um dia a agropecuária nacional terá o reconhecimento que merece, sustentada por uma política agrícola duradoura e consistente.

* Fábio Meirelles é Presidente do Sistema FAESP/SENAR-SP.  Artigo publicado no Caderno do Agronegócio do Jornal Estadão, em 30/06/2015.